“Os testamentos”- com spoilers

“Os testamentos”- com spoilers

Em setembro desse ano, a escritora canadense Margaret Atwood lançou “The testaments”, a tão esperada sequência da sua distopia “The handmaid’s tale”, escrita nos anos 80. De acordo com a romancista, a obra responde a uma série de perguntas que lhe foram feitas pelos fãs ao longo de mais de 30 anos. Ao final do livro, ela comenta: “trinta e cinco anos é muito tempo para pensar sobre as possíveis respostas e elas vem mudando conforme a sociedade e as possibilidades têm se tornado atualidades”. Para a autora, “os cidadãos de muito países, incluindo os Estados Unidos, estão sob uma maior pressão agora do que há três décadas”.

Todo o contexto histórico dos últimos anos teria inspirado a escritora a voltar ao universo de “O conto da aia”, mas sob novas perspectivas. Em entrevista concedida, Atwood afirma que começou a pensar na sequência em 2015, isto é, dois anos antes da estreia da série. Atualmente, já popularizada “The handmaid’s tale” tem causado horror aos expectadores das três temporadas produzidas e lançadas pelo canal de streaming Hulu. A impressão muitas vezes passada é a de que a tortura das mulheres é mais importante para a história do que uma linha narrativa mais consistente.

Nessa resenha, trataremos da sequência literária, mas sem nos preocuparmos com os spoilers. Portanto, se não quiser saber o final da história, leia aqui “The testaments – um olhar sobre a continuação de The handmaid’s tale – SEM spoilers

Notas históricas

Conforme alardeado pela mídia, “The testaments” se passa mais de uma década depois dos eventos do primeiro livro. A obra é organizada a partir dos relatos autobiográficos de três mulheres que viveram o sistema gileadeano: a já conhecida Tia Lydia; Agnes, filha de um comandante de Gilead; e Daisy, garota canadense, à primeira vista sem nenhuma relação com o país vizinho.

Esses dados são levantados pelos historiadores do “Notas históricas” que, a exemplo do primeiro livro, dão o tom da veracidade das informações contidas na documentação apresentada. No entanto, diferentemente do que acontece em “The handmaid’s tale”, os historiadores da sequência, que são os mesmos, estão mais preocupados com as narradoras. Elas têm nome, época, endereço. O mais importante: nenhum de seus dados é pautado por possíveis parentescos ou relacionamentos com homens. Em “The testaments” as mulheres são, elas existem.

Se lembrarmos das “Notas históricas” do primeiro livro, nelas os historiadores, homens, relativizam a importância do relato de Offred e fazem piadas sexistas. Além disso, quanto à investigação histórica propriamente, se ocupam de quem poderia ter sido o comandante Fred e dão pouca reelvância para a rota de fuga das aias. Portanto, o que temos é uma representação fiel do fazer histórico mais tradicional: apenas os poderosos têm vez e têm voz. As mulheres, as vítimas, são apagadas da história oficial, rechaçadas como ponto de vista confiável.

Nos últimos 30 anos muito foi discutido e alterado no campo da História, a micro-história se popularizou e, cada vez mais, tornou-se relevante ouvir os relatos daqueles desfavorecidos socialmente: escravos, pobres, empregados, mulheres, entre outros. Hoje é fundamental dar nome, sempre que possível, às vítimas da história. Naturalmente, Atwood sabe disso. Suas “notas históricas” são um reflexo das alterações profundas que ocorreram na sociedade.

Narrativa

Para quem leu o primeiro livro e, talvez, tenha sofrido com a lentidão, o tédio, a marcação do tempo, esse segundo pode parecer demasiadamente rápido. Lembra um thriller que, à medida em que mais avança na história, mais se torna impossível parar de ler. E não poderia ser diferente: quase 35 anos depois e tudo mudou: os leitores, a própria autora e as circunstâncias.

O que quero dizer com isso é que, frente às novas demandas sociais, com as mulheres cada dia mais usando suas vozes para denunciar as consequências nefastas do patriarcalismo (pensemos no exemplo do movimento #MeToo), não poderíamos ter uma protagonista como a Offred. A aia, tal como trabalhada no livro, de tão oprimida pelo sistema, ao mesmo tempo ainda em choque por todas as modificações que aconteceram em sua vida pessoal, mas também no âmbito mais amplo da sociedade, representa a própria desesperança.

Diferentemente da June da série que, em primeiro lugar, tem nome, tem voz, tem força, a Offred do livro vive mais tempo alheia do que acontece ao seu redor. A morte da aia que lhe acompanha é um alívio por não lhe comprometer. Tudo o que ela quer é sobreviver. Se lermos os relatos dos campos de concentração da segunda guerra mundial, teremos muitos aspectos válidos de comparação. Afinal, não podemos nos esquecer do que Atwood sempre disse: tudo que escreveu foi baseado na história, tudo aquilo já aconteceu “em algum lugar, em algum momento. Eu não inventei nada”.

O começo do fim

Exatamente por essa relação íntima com a atualidade, as narradoras de “Os testamentos”, especialmente as duas mais jovens, trazem um frescor para a obra, distanciando-se do livro dos anos 80. Daisy cresceu livre no Canadá, frequentou escolas particulares, estudou Gilead como história e geografia, sem nunca ter precisado vivê-la.

Agnes, por sua vez, cresceu dentro da sociedade gileadeana. Na prática, isso não significa que sua história de vida é necessariamente triste. Ainda criança, foi adotada por uma esposa e um comandante de alta patente; cresceu dentro de uma casa com três Marthas; foi muito amada pela mãe e mimada pelas empregadas. No entanto, estamos falando de Gilead. Nada é tão perfeito e lindo. Quando a mãe morre, a menina se vê frente à realidade: descobre que não é sua filha biológica, mas de uma aia, portanto, seu status entre as amiguinhas da escola cai e vira motivo de piada. Afinal, uma vez filha de uma aia – as aias são vistas como mulheres desonradas e pecadoras por terem tido mais de um homem – traria em si a inclinação para o desregramento e o pecado.

É com Agnes que Gilead mais lembra aquela da Offred: as meninas são educadas para serem esposas, terem filhos próprios ou precisarem dos serviços de aias. Portanto, não podem ler, escrever, não podem questionar. Devem obedecer aos pais, às tias que as educam, aos maridos, e até mesmo às Marthas. Sendo preparadas para atuarem como esposas, é importante que não adquiram funções além das que lhe foram atribuídas pelo sistema.

É nesse momento que a genialidade de Atwood se revela. Enquanto no primeiro livro, tia Lydia afirmava para a primeira geração de aias sofreria mais para se adaptar, a partir da segunda, tudo seriam flores. A ideia é que as crianças nascidas no sistema não teriam tido acesso ao mundo externo, não saberiam que tinham outras possibilidades, sendo, portanto, cegamente obedientes às suas obrigações. Não é isso o que acontece. Bom, não é o que acontece com todas. É claro que há meninas que se encaixarão perfeitamente às expectativas da sociedade e as cumprirão com a maior alegria.

Todavia, há sempre pontos fora da curva. Agnes, assim como uma de suas melhores amigas, Becka, representam essas outras possibilidades. Vítimas de assédio sexual, as duas garotas adoecem ao serem levadas à preparação para o casamento. A idade média dos casamentos das garotas se dá por volta dos 13 aos 15 anos. Aos 20 uma jovem já seria malvista e não mais poderia optar pelo candidato a casamento que mais lhe agradaria.

Um ponto que merece ser comentado: o sistema de Gilead promete proteção às mulheres. Conforme o primeiro livro, elas estariam livres para exercer suas funções biológicas e não mais seriam vítimas. No entanto, as aias são vítimas de estupros ritualizados mensalmente. Enquanto as crianças são criadas dentro de um sistema que não lhes atribui crédito, voz, sendo impossível reportarem qualquer tentativa de assédio ou coisa parecida e algo, de fato, acontecer ao agressor. Nessas sociedades, as mulheres são ensinadas a cobrirem todas as partes dos seus corpos, pois uma canela exposta poderia induzir os homens aos pensamentos mais pecaminosos. As mulheres são criadas com medo de serem vítimas, com medo de seduzirem, apenas por existirem. Cometido o crime, a vítima seria a culpada, pois teria sido ela quem induziu à ação (lembra a relação intrínseca com a realidade?).

Bom, voltando aos pontos fora da curva, devido às experiências traumáticas, Agnes e Becka adoecem com a iminência de se casarem. Nesse momento, entra tia Lydia. Aliás, temos acesso aos seus relatos ao longo do livro, mas é nesse momento que suas histórias se entrecruzam de verdade.

Tia Lydia: começo e fim

Tia Lydia escreve. Não só aquilo que está entre suas atribuições, mas em determinado momento, ela decide que deve escrever. O intuito é deixar para seus leitores, sendo eles seus inimigos, historiadores do futuro, pessoas quaisquer, o seu relato, a sua perspectiva sobre Gilead. Seu diário fica escondido dentro de seu escritório, aberto apenas por ela, longe do foco das câmeras, instaladas por ela mesma.

Na série, a história de vida da tia Lydia é pessimamente desenvolvida, não há complexidade na personagem, ela é má e ponto final. No livro, não. Tia Lydia é humana. Mais uma vez, podemos aproximar a experiência de uma personagem de Atwood da vivida pelos prisioneiros de Auschwitz, por exemplo. Tia Lydia foi capturada, torturada, passou fome, ameaçada de morte, presenciou a execução de centenas de mulheres com o mesmo perfil que o seu. Optou por sobreviver. Como ex-juíza da vara familiar, foi chamada a cooperar com o sistema. Em troca de comida, roupa limpa, um pouco de dignidade, aceitou.

Mas tia Lydia, ao contrário do que os fundadores de Gilead acreditam, é uma mulher engenhosa, estratégica, absurdamente inteligente. Desde o primeiro momento, ela usa a misoginia dos líderes a seu favor. Se é para criar um sistema feminino, que os homens não tomem parte nele, que as mulheres – as tias – se encarreguem da educação de outras tias, das esposas e das aias. É óbvio que a personagem contribui para a tortura e o abuso de inúmeras mulheres. Em nenhum instante isso é esquecido. No entanto, a grande sacada de tia Lydia é usar o seu ódio contra aqueles responsáveis por sua própria tortura para destruí-los. Ela própria cria o sistema de documentação de todos os eventos de Gilead. Como desculpa, a necessidade de evitar o incesto, já que as mães aias são apagadas das histórias pessoais e oficiais das crianças gileadeanas.

De posse de todos os segredos de todas as casas, tia Lydia manipula a todos para alcançar seus objetivos. Por mais incrível que pareça, há bondade na personagem. Sabendo da podridão no comportamento dos homens, ela salva Agnes e Becka do casamento, estimulando-as a declararem-se como inaptas para a vida matrimonial, frente ao chamado para a vida religiosa de tias. Por outro lado, Shunnammite, criança devota ao sistema, é punida com a escolha de um marido muito pior do que o por ela escolhida. A presunção de um maior status social cega a menina e a família. Nessa perspectiva, tia Lydia está pronta a jogar carne aos leões, se for preciso, para manter suas próprias estratégias em andamento.

Agnes, Lydia e Daisy: o fim está próximo

Ao salvar Agnes e Becka do casamento, tia Lydia vai além. As futuras tias são ensinadas a ler e a escrever, para que possam cumprir suas funções. No caso de Becka e Agnes, secretamente e aos poucos, elas vão tendo acesso à podridão de comportamento dos próprios pais, assim como de outros comandantes e suas esposas e, ao mesmo tempo, têm acesso às suas árvores genealógicas. Tudo isso sem Lydia se expor.

Revolucionário é acabar com um sistema agindo por dentro enquanto representa seu papel de protetora e articulada por fora. Tia Lydia é o próprio gato na fábula da raposa e do gato. Ela se mantém acima de todos, jogando poderosos uns contra os outros sempre que necessário. Ela sobrepõe-se às demais tias fundadoras e age em conformidade com os próprios valores. Talvez o maior plot-twist literário dos últimos tempos. A riqueza da obra de Atwood está nessa capacidade de articulação de sobrevivência de tia Lydia. Ela se une ao sistema, mesmo sem ter crenças religiosas, cria hinos, educa toda uma sociedade, enquanto reúne provas da decadência e inaptidão de seus líderes.

Como se tudo o que foi dito não bastasse, temos Daisy, a garota canadense que, à primeira vista não tem nenhuma relação com Gilead. No dia de seu aniversário de 16 anos ela descobre que seus pais foram assassinados, que eles não eram seus pais biológicos, apenas protetores arranjados pelo Mayday, isto é, a rede de resistência que tira mulheres e crianças de Gilead. Anos atrás, uma aia, desconhecida, teria conseguido enviar sua filha, baby Nicole, para o Canadá. A criança, então, se tornou símbolo da ineficiência de Gilead, mas internamente, foi tratada quase como um santa. Sua foto está presente em quase todos os lugares oficiais, junto à foto de tia Lydia.

Para quem assistiu a terceira temporada da série, aconselho muita calma nessa hora. Como revelado nas “notas históricas” não há relação direta, comprovada, entre Offred e as meninas Agnes e baby Nicole, essa mais conhecida como Daisy.

Daisy faz parte de um plot conspirador, disposto a derrubar Gilead. Para isso, ela entra no país disfarçada de missionária das Pearl Girls (isto é, “as garolas da pérola”, numa tradução literal), que instruídas pelas tias, buscam nos países vizinhos moças dispostas a levarem uma vida mais sagrada, como tias, esposas ou nos casos mais rebeldes, até mesmo aias. As mulheres são convencidas pelas Pearl Girls de que terão uma vida melhor em Gilead e a ação é vista como suspeita de escravidão sexual pelas autoridades canadenses.

Daisy embarca para Gilead e fica sob os cuidados das tias Victoria e Immortelle, nomes adquiridos por Agnes e Becka. Nesse ponto não surpreende ninguém que quem organizou toda a aventura é tia Lydia. Seu objetivo ao trazer baby Nicole de volta para Gilead é avisar às autoridades sobre seu paradeiro. No entanto, pelo caráter especial de baby Nicole, assim como sua entrada, sua saída também é facilitada. Depois de uma série de dificuldades, Daisy/Nicole volta ao Canadá carregando todos os arquivos acumulados por tia Lydia ao longo de sua função.

Somada à pressão externa, – Califórnia e Texas são estados independentes, não pertencentes à Gilead, com vários membros no Mayday e/ou infiltrados em Gilead – a divulgação externa de todos os crimes cometidos pelos comandantes e suas famílias aponta para a derrocada do sistema. Evidentemente que os comandantes negam tudo (turminha das fakenews, são vocês?), mas como a exposição é massiva, o fim de Gilead é só uma questão de tempo.

Opinião

Pessoalmente, eu não achei o desenvolvimento da personagem Daisy/Nicole minimamente satisfatório. Como símbolo usado a favor e contra Gilead, a personagem acaba sendo usada, com sua vida colocada em risco, por ambos tia Lydia e Mayday, mais uma vez. À personagem não é sequer dado tempo para lidar com a morte dos pais de criação.

Entretanto, tia Lydia e Agnes têm um desenvolvido um tanto fascinante. Agnes mais na infância e na adolescência. Ao final, acaba sendo instrumentalizada por tia Lydia, mas sua trajetória serve para refletirmos em como existe contestação mesmo em sociedades aparentemente totalitárias. As crianças não se tornam, necessariamente, aquilo para o que foram criadas e isso é um grande alívio, um aceno à esperança de dias melhores.

Aguça a inteligência, por sua vez, as reviravoltas na história de tia Lydia, quem acaba tendo a maior importância para a história. Ironicamente, é uma mulher que ajudou a criar o sistema, a responsável pelo seu desabamento moral. A representação legítima de que subestimar mulheres é o maior ponto cego de uma sociedade patriarcal.

Mas e a Offred?

Conforme disse anteriormente, não há relação comprovada entre Offred e as jovens Agnes e Nicole. Mais uma vez, se assistiu a série, lembre-se que se trata de obras distintas. Os criadores das temporadas não são a Margaret Atwood, eles apenas se inspiraram em “The handmaid’s tale”. Tendo dito isso, vamos imergir nas “notas históricas”. Certamente, Atwood tem noção do alcance da série e é com esses fãs que ela brinca. Se na série a Offred é a June e foi a June a responsável por enviar a filha, baby Nicole, para o Canadá, assim como ela é a mãe biológica da criança Agnes, no livro tudo isso não passa de uma versão hipotética, relacionada remotamente com as evidências.

Vejam bem os argumentos: no livro 1 ninguém sabe qual o nome real da Offred. Nem sequer ficamos sabendo se ela realmente está grávida, muito menos se ela deu à luz uma criança saudável. Se o fez, também não temos a menor ideia se essa criança hipotética seria uma menina. Não sabemos o que aconteceu com Offred, portanto, não há como ter certeza que ela teve uma filha e, mais uma vez, muito menos podemos afirmar que ela foi enviada para o Canadá.

Outro ponto: a menina Agnes do livro tem uma lembrança vaga de correr pela floresta, de mãos dadas com uma mulher, a quem atribui o papel de sua mãe, mas aquela que a criou. No livro 1 sabemos que Offred foi pega correndo pela floresta, tentando se esconder com a filha. Mas fica o questionamento: no contexto dos aprisionamentos de Gilead, com quantas mulheres essa história se repetiu? Não há absolutamente nenhuma evidência de que a Agnes do livro 2 é a filha da Offred do livro 1. O que sabemos é que ela é a irmã mais velha da Nicole. Nos arquivos disponibilizados por tia Lydia os nomes verdadeiros da mãe em comum e dos diferentes pais estão apagados, não sendo possível sua identificação para o leitor. Todavia, sabemos que baby Nicole não é filha do comandante a quem a mãe servia. Seu pai é outro homem.

Esperança 

Conforme eu disse, a autora brinca com os expectadores da série. Sabe-se, pelas análises históricas realizadas, até o momento, que houve uma aia, fugitiva, que participou ativamente do Mayday, sofreu duas tentativas de assassinato e viveu sob proteção durante muitos anos. No entanto, “tirar conclusões precipitadas pode nos desviar, por isso dependo de futuros estudiosos para examinar o assunto mais de perto, se possível”, afirma o estudioso Pieixoto. Continua, mais à frente, “Vou me limitar a sugerir que a correspondência” entre “vários nomes-chave em nossas transcrições é altamente sugestiva, para dizer o mínimo”. Ao encerrar sua apresentação, nos deixa mais um pedaço do quebra-cabeças: com a restauração dos Estados Unidos, várias evidências e marcas do período gileadeano emergiram, entre elas uma estátua dedicada à Becka, quem teria se sacrificado por suas irmãs de coração, Agnes e Nicole. E, mais importante, a homenagem é dedicada pelas próprias, junto à sua mãe, seus respectivos pais, seus filhos e netos, ou seja, Atwood deixa entrever que houve um reencontro entre mãe, filhas e pais. A mensagem que nos deixa entrever ou pelo menos suspeitar é a de que houve um final feliz, em família, em liberdade.

 

Por fim, o relato de desesperança de Offred…

 

“Isso não é uma história que estou contando.

É também uma história que estou contando, em minha cabeça, à medida que avanço (…).

Você não conta uma história apenas para si mesma.

Sempre existe alguma pessoa.

Mesmo quando não há ninguém.

Uma história é como uma carta.

Caro Você, direi. Apenas você, sem nome.

Acrescentar um nome acrescenta você ao mundo real,

que é mais arriscado, mais perigoso:

quem sabe quais serão as probabilidades lá fora de sobrevivência, da sua sobrevivência?

Eu direi você, você, como uma velha canção de amor.

Você pode ser mais de uma pessoa.

Você pode significar milhares.

Não estou em nenhum perigo imediato, direi a você.

Fingirei que você pode me ouvir.

Mas não adianta, porque sei que não pode”.

 

… é substituído por um de esperança,

 

“Um pássaro do ar carregará a voz, e aquele que tiver asas dirá. O amor é tão forte quanto a morte”.

 

Aline Machado

Aline Machado

Historiadora e Professora de História; Apaixonada por gatos e narrativas; estas incluem literatura, boardgames, filmes e séries.

2 comentários sobre ““Os testamentos”- com spoilers

    1. Pois é, a personagem na série se manteve dentro da dualidade bem x mal, sendo que a do livro é infinitamente mais complexa. Acho que a série perdou muito ao fazer esse tipo de escolha.

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