Cadê você, Bernadette?

Cadê você, Bernadette?
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“Cadê você, Bernadette?” é um filme baseado no livro de Maria Semple e dirigido por Richard Linklater. Quem já assistiu “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia Noite”, “Boyhood”, “Waking Life”, entre outros filmes deste diretor, sabe que ele nos presenteia com filmes profundos. Não é diferente com este. O formato difere bastante da trilogia de “Antes”: os diálogos ditos praticamente o filme inteiro pelo casal são substituídos em “Cadê você, Bernadette?” por uma estrutura fílmica mais convencional.

Mas não menos profunda…

 

A partir de agora, haverá spoilers…

 

Bernardette (Cate Blanchett) aparece como uma mulher perturbada. Sua fobia social é tão grande que ela opta por fazer pela internet tudo que seja possível, com o intuito de evitar sair de casa e interagir com pessoas. Ela sofre de insônia e não consegue se relacionar com ninguém além de sua família. A personagem nos é apresentada assim e a primeira impressão é de que é quase impossível conviver com uma pessoa como ela. Em seguida, a tendência é se compadecer do marido. Ele a trata com carinho e uma paciência que não fica devendo nada a Jó (aquele, da Bíblia, que tudo suporta, sem reclamar)…

A filha de Bernadette pede aos pais que façam, os três, uma viagem à Antártida. A simples ideia já causa um aumento considerável de stress para Bernadette, que tende sempre a temer aquilo que ela não pode controlar. Os sintomas que ela vive se agravam e a paciência do marido começa, finalmente, a acabar…

Em meio aos preparativos para a viagem, Bernadette se envolve em várias situações inusitadas. É vista pelo marido dormindo no sofá de uma loja. Briga constantemente com uma vizinha e é acusada pela mesma de tê-la atropelado. Essa mesma vizinha vê sua casa sendo invadida por um mar de lama que desce da casa de Bernadette e, ao que tudo indica, isto é causado, ainda que indiretamente, talvez, por descuidos da protagonista. O casamento de Bernadette parece estar também na iminência de se romper e ir por água abaixo, exatamente como o barranco de sua casa. Seu marido está exausto e exatamente neste momento surge uma assistente que parece ser o oposto da esposa: faz tudo em sua vida funcionar de forma organizada e sem sobressaltos (hello, clichê)… Tudo vai levando a crer (e é perceptível para a própria Bernadette) que seu marido não tardará a romper com ela. E ela parece não se importar.

É aos poucos que vamos conhecendo as origens dos comportamentos da protagonista. Ficamos sabendo que Bernadette era uma arquiteta genial, quando morava em Los Angeles. Parecia que teria um futuro promissor e era considerada um gênio. Por um desses reveses que a vida traz, ela viu seu maior projeto arquitetônico sendo comprado por uma celebridade e transformado em estacionamento. A família, então, se muda para Seattle, onde Bernadette nunca se engajou, como antes, em nenhum projeto. Ela parece ter perdido sua força criativa após a decepção com seu projeto anterior. Ela e o marido tentam engravidar, mas ela sofre quatro abortos espontâneos. Quando finalmente consegue ter uma filha, o bebê nasce com complicações. Felizmente, o bebê cresce e se torna uma adorável filha. A filha, aliás, é a única amiga de Bernadette e parece ser a única pessoa capaz de ainda ver as características positivas da mãe. Nesse momento, vamos compreendendo que Bernadette perdeu muito. Perdas muito significativas e que, por isso, o mundo passou a ser um lugar visto por ela como hostil.

O marido tenta interná-la em uma clínica psiquiátrica e neste momento temos o típico caso de uma sociedade que parte para a solução clichê de classificar a mulher como “a louca do sótão”. Seu diagnóstico, por exemplo, é feito em pouco tempo por uma psicóloga que conclui o quadro de Bernadette sem sequer ouvi-la: apenas com os relatos do marido já se decide qual são o transtorno e o tratamento. O marido, outrora mostrado como extremamente compreensivo e tolerante, agora é visto como alguém que deixou de enxergar o outro. Que não conseguiu ver o que a dor causava naquela pessoa que estava ao seu lado. Ele via o que Bernadette tinha se tornado, ele se ressentia do fato de ela não ser mais quem era e por quem ele se apaixonou. Mas falhava em ver a razão dessa mudança.

Fugindo da internação compulsória, Bernadette escapa pela janela do banheiro e vai sozinha para a Antártida, acreditando que seu marido e filha seguiriam com os planos da viagem e, assim, ela se encontraria lá com eles. O que ela não sabia é que nessa viagem ela teria um encontro muito mais importante e que mudaria sua vida…

Remando em um caiaque nas gélidas águas, ela ouve alguém perguntar: “quem é você?” Bernadette responde que estava se fazendo exatamente essa pergunta. Ela acaba fazendo amizades e decide abraçar um projeto no meio do gelo, em uma estação de pesquisa distante. Sua família a reencontra e ficam todos bem, mas o mais bonito do filme é ver que ELA se reencontra, se reconecta consigo mesma. Ela não precisava de remédios ou de internação. Ela precisava voltar a criar. O título do filme, “Cadê você, Bernadette?” pode ser uma referência à busca feita pela família, ao tentar encontrar o paradeiro da mãe/ esposa que havia sumido. Mas acho mais poético pensar que vai além disso… Essa busca era muito mais profunda e pessoal…

 

Raquel Andrade

Raquel Andrade é graduada em Letras (UFMG) , tendo cursado um semestre na Wayne State University (Michigan, Estados Unidos), onde estudou literatura e cinema. Mestre em Literatura (UFOP), dissertou sobre o livro “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, e três adaptações deste romance. Já lecionou idiomas em várias escolas e atualmente é autônoma, ainda trabalhando com ensino de línguas e tradução. Traduziu um conto de Hemingway e já realizou tradução consecutiva, entre outros trabalhos. Apaixonada por livros, séries, filmes e tudo que envolva a sétima arte.

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